terça-feira, 22 de janeiro de 2013

~ Capítulo 5 ~ O Conto Azul


 A primeira coisa que os defuntos fazem depois de enterrados, é abrirem os olhos*. E depois a boca e aí não param mais. Constatei isso da forma mais assustadora possível, no enterro da minha avó que, coitada, mal teve a primeira pá de terra jogada sobre seu caixão, já chamava, veja você, pelo meu nome:
- Ricardo seu moleque! Isso é invenção sua? Me tire daqui. Que lugar escuro é esse? Quem é esse povo que não para de falar?

Ninguém ficou pra contar história, é claro. Só eu, que fiquei com tanto medo que da beira da cova não me movi. Não até minha avó me chamar de novo, pedindo que eu ajudasse ela a sair dali. Era tão inacreditável que acabei obedecendo, vejam só, vovó estava viva! E pálida. Abri a tampa do caixão e ela se sentou, esfregou os olhos, ajeitou o seu querido óculos com o qual fora enterrada e a primeira coisa que disse
ao me ver foi:
- Que cara é essa, Ricardo? Você tá mais magro também. Bem que eu disse a sua mãe, você tem que comer bastante e agora que eu morri, não tem mais minhas comidas, vai perder peso. Vê se come direito, menino.
Eu só consegui balbuciar:
- Mas...Vó, você tá viva!
- Não seja leso, menino! Estou mortinha! E não ficou ninguém pra falar comigo? Eu devia ter ficado deitada mesmo onde estava, que povo mais mal agradecido e sem coração. Aliás, é o que vou fazer mesmo! Passe bem, meu neto e coma direito. Ahh, por favor, peça pra esse pessoal todo fazer silêncio, assim não tem quem descanse.
E me olhou nos olhos como nunca tinha feito e apertou meu braço, deixando uma marca esquisita e do mesmo jeito que acordou, caiu durinha no caixão, com os dedos cruzados e um quase sorriso no rosto, cara de quem finalmente vai descansar. Tão incrível foi aquilo que eu só sabia arregalar os olhos. Enfim, fechei a tampa do caixão, bati a terra da roupa e reparei na estranha marca no meu braço que minha avó tinha deixado. Junto com ela, percebi outra coisa: apesar de não ter uma alma viva no cemitério,
ouvia pessoas falando comigo, pedindo ajuda, perguntando as horas, perguntando onde estavam, todo tipo de coisa.
Não sei o que ela fez mas agora eu podia ouví-los, todos os defuntos que depois de enterrados, abriam os olhos e falavam sem parar. Escuto eles o tempo todo. Tudo culpa da minha avó!

*A primeira frase é do Mário Quintana, uma história chamada Conto Azul, no qual ele só escreveu esse trecho e ficou tão horrorizado com o que poderia vir dessa descoberta, que assim deixou como estava. Carol me apresentou esse trecho e propôs que eu terminasse pro Quintana. Aí está! Não tem cara de final, mas se você quiser, pode terminar essa história inclusive.

4 comentários:

Eliel Ribeiro at: 22 de janeiro de 2013 10:30 disse...

Boa Stuart huahahahahaa

. at: 22 de janeiro de 2013 15:55 disse...

^^ que história .... hahahah

.faso at: 22 de janeiro de 2013 21:25 disse...

Não sei se é a proposta, mas isso dá um ótimo prólogo para as desventuras do Ricardo, o menino que podia falar com os mortos! X)

Um super abraço,

tio .faso

caroline at: 24 de janeiro de 2013 02:25 disse...

Concordo com Faso!

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