terça-feira, 6 de agosto de 2013

~ Capítulo 6 ~ Almeida, o funcionário




Chamava-se Almeida, como devem se chamar todos os funcionários públicos. Estava na repartição havia 35 anos, 11 meses e 29 dias e os colegas brincavam que dali a pouco seria tombado patrimônio público.

Perseguidor do funcionalismo exemplar, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. O que não significava absolutamente que trabalhasse muito. Não tinha interesse em adequar-se às novas tecnologias, para ele completamente dispensáveis, e era capaz de passar horas quase imóvel na frente de um computador, como se meditasse. Era uma figura pálida, apática, jamais tomara uma decisão, jamais fizera uma pergunta. Movia-se devagar, da porta de entrada à mesa e lá permanecia em silêncio, há 35 anos, 11 meses e 29 dias.

Uma semana antes da aposentadoria compulsória, Almeida sentado a sua cadeira, se contorce num violento espasmo e cai, acertando em cheio o teclado em frente. Morre.
Na manhã seguinte a viúva comparece à repartição para retirar os pertences do marido. Era uma senhora franzina, cabelos presos, divididos ao meio, lamentava num choro esganiçado, entrecortado por acessos de tosse, falta de ar e gemidinhos dolorosos. Lembrava em tudo um cachorro.
Passaram-se alguns dias e já nem se falava no falecido. Honestamente, sequer lembravam-se dele. A mesinha que antes ocupava, agora pertencia a Célia, uma criatura maravilhosa em todos os 95 centímetros de busto.

Numa manhã como qualquer outra, chegando ainda sonolenta, Célia quase tem um ataque cardíaco quando se depara com Almeida, sentado à mesa. Desorientada, vai ter com os colegas, achou que via coisas. Gomes, aproveitando-se da situação para demonstrar virilidade e coragem, vai averiguar. Volta branco como papel e depois um a um, cautelosos, os colegas examinam. É Almeida.

Será possível? Era certo que morrera, pois se todos viram, bem ali, a cabeça enterrada no teclado do computador?! Morrera e não sabia. Digitava lentamente alguma coisa e bebericava um café. Todos se reunem na copa para decidir o que será feito. Ora... é certo que está morto, mas  de todo modo não havia muita diferença. Conserva a aparência de vivo: a palidez, os ossos salientes, o profundo desinteresse de tudo. Resolvem não contar nada. Até hoje Almeida é um assíduo funcionário, um morto distraído que não percebeu que finou.

por Caroline Viana

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